Histórias contadas pelos nossos avós…

Vida de um soldado

Ernesto dos Santos Fernandes descreveu a sua vida de soldado aquando assentou praça em Tancos em 1949. Estas memórias em forma de poema encontram-se num pequeno livro já amarelado do tempo, uma preciosidade escrita por Ernesto dos Santos Fernandes. Tal como dizia o Padre Antônio Vieira “o livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”. Ernesto dos Santos Fernandes, natural de Portela, foi alfaiate, GNR e um exímio contador de histórias como referem os amigos.

Lídia da Assunção Pires e Ernesto dos Santos Fernandes

Livro Memórias Ernesto Fernandes

Página do Livro Memórias Ernesto Fernandes

O Ernesto tocava muito bem bandolim. Ele era um grande contador de histórias. Se o Ernesto ainda cá estivesse enchia-lhe o caderno de histórias. Ele sabia muita coisa.” Hermínio Tomé, 76 anos – Portela

VIDA DE UM SOLDADO I

Quando eu assentei praça
No quartel de engenharia
Foi no dia 12 de Março
Que findou minha alegria

Em 1949
Foi que eu assentei praça
E dentro de pouco tempo
Notava a minha desgraça

Foi dia 10 de Março
Da minha casa sai
Para ir assentar praça
O meu caminho segui

Quando de casa sai
Disse adeus à minha terra
Vou assentar praça em Tancos
Lá no meio de uma serra

Despedi-me dos meus pais
Quase sem poder falar
Eles olharam para mim
Muito tristes a chorar

Adeus querida mãezinha
Com que custo me criou
Agora vou-me embora
Sem saber pra onde vou

Disse adeus à minha amada
Com um desgosto profundo
Como se fosse a partida
Para ir pró outro mundo

Adeus minha terra adeus
Adeus também meus pais
Desde já vos vou deixar
E não sei se volto mais

Adeus meus queridos leitos
Onde as noites descansava
Agora vou para a tropa
Deixar-te nunca esperava

Adeus minha mãe, meus irmãos
Toda a minha geração
Devagar e tristemente
Vou ir para a estação

Quando cheguei à estação
Sentei-me e pus-me a pensar
Que destino será o meu
Aonde é que irei parar

Depois entrei no comboio
Pra seguir o meu destino
Ainda disse a chorar
Mais valia ter morrido logo de pequenino

Adeus, adeus minha terra
Adeus todos em geral
Vou aprender a ser homem
Para defender Portugal

Adeus rapazes amigos
Da minha querida terra
Agora vou ser soldado
Vou ser homem para a guerra

Eu parti da minha terra
Com uma dor no coração
Olhava para trás e seguia
Cheio de compaixão

Fui seguindo a minha viagem
Não deixava de pensar
Fui seguindo para Tancos
Para lá desembarcar

Então ai me apeei…
Dirigindo-me ao local
Aonde eu assentei praça
Foi no meio de um pinhal

Que terra tão desgraçada
Que até mete horror
Só se veem árvores e matos
Onde faz tanto calor

Levaram-me ao hospital
Para uma nova inspeção
Disseram-me que estava ótimo
Para ir para a instrução

No momento eu em que pensava
O que a sorte me trazia
Chegou logo um comandante
Levou-me à secretaria

Então uma escada subi
Um pouco desanimado
Ao entrar na secretaria
Fui logo interrogado

Diz-me como te chamas
Disse para mim um tenente
Em que terra é que nasceste
Como se chama a tua gente

Minha terra meu tenente
É a melhor que pode haver
Onde deixei a minha família
De certo por mim a sofrer

Então deu-me um papel
Para eu ler e ler bem alto
És o número 181
Companhia sapador de assalto

Ao meu primeiro sargento
Eu me fui apresentar
Mandou-me ir buscar a roupa
Para depois me fardar

Depois fui para a caserna
Com um braçado de roupa
Ainda me deram mais
Que aquela era pouca

Visto isso disse-me um
Paisana tu já não és
Agora estás fardado
Da cabeça até aos pés

Depois disse que eu fosse
Buscar a roupa da cama
Diz ao cabo que ta dê
Que é o nosso sargento que manda

Mais uma escada subi
Já um pouco atrapalhado
Cheguei à porta e disse
Dá licença ó meu cabo

O que é que você quer
Logo ele me falou
Venho buscar a roupa
Que o nosso sargento mandou

Pega lá a tua roupa
Mantas, lençóis, travesseiros
Vais fazer a tua cama
Ao pé de teus companheiros

Então fui fazer a cama
Ao pé dos meus companheiros
Como nenhum conhecia
Todos me pareciam estrangeiros

Depois fui para a instrução
Sem nada saber fazer
Comecei a marcar passo
Esquerda, direita, volver

Às 6 horas da manhã
Toca logo a alvorada
Levanta-se lá ó galusco
Se não levas cinturada

Vamos logo tomar o café
Que é o que mais interessa
E não me ponho a dormir
Tenho de andar depressa

Depois vou para a ginástica
Em camisola e calção
Fazer parte de macaca
É a primeira instrução

Passados mais 8 dias
Que tinha de instrução
Para ver o que fazia
Meteram-me uma arma na mão

Passados mais 5 dias
Formamos todos uma fila
Às ordens de um comandante
Para receber a mochila

Deram-me um capote
Que eu estendi no chão
Deram-me um par de botas
E também um cinturão

Deram-me 2 pares de meias
Também 2 pares de coecas
Deram-me dois pares de calças
Que me ficaram muito certas

É tanta a disciplina
Tanta coisa em meu poder
É tanta a responsabilidade
Não sei o que eide fazer

Que extensão tão vigorosa
Tudo com tanto vigor
No meio desta parada
Onde faz tanto calor

Por um pequeno ordenado
Obrigam-me a trabalhar
Faça chuva, faça vento
Prá frente é que é andar

Há dias que o rancho é bom
Arroz, feijão e massa fraca
Também há outros dias
Que só são ossos de vaca

Termina por aqui a minha vida
Dum pobre e triste soldado
Rancho, mochila e arma
Vem morrendo fica arrumado

VIDA DE UM SOLDADO II

No dia doze de Março
Dia em que fui assentar praça
Sabe Deus o meu cansaço
A todos dirigia má desgraça

Ao despedir-me dos meus
Nesse doloroso dia
Só talvez soubesse Deus
O que o meu peito sentia

De meus pais me despedia
Copiosamente a chorar
Minha mãe só me dizia
Filho tu vais-me deixar

De novo me veio abraçar
E eu segui o meu destino
E assim deixei o meu lar
E o meu povo pequenino

CHEGADA NO REGIMENTO

À porta do regimento
Estava uma sentinela
Logo naquele momento
A sorrir me disse ela

Entra que a tropa é bela
Isto é um gosto cá andar
O que é preciso é cautela
Para ninguém nos castigar

Ao ouvi-lo assim falar
Fiquei cheio de alegria
Pedi-lhe para me ensinar
Aonde era a secretaria

Sobe essa escadaria
Que ao cimo a vais encontrar
Com muita ou pouca alegria
Vai-te lá apresentar

Subi até que fui dar
Então com a secretaria
Pedi licença para entrar
E entreguei a minha guia

Quando da porta saia
Diz-me logo o quarteleirio
Toma banho em água fria
Depois vai ao nosso primeiro

A seguir vai ao barbeiro
O teu cabelo cortar
Depois de ires ao primeiro
Vens-te a mim apresentar

A farda te quero dar
E mais o belo bonete
Muito bem te há-de ficar
Deves parecer um cadete

Pega a camisa e o colete
E a farda de cotim
O capacete é à cadete
Não há outro aqui assim

E eu ao ver-me por fim
Já com a farda vestida
Quando reparei em mim
Disse mal da minha vida

A calça era tão comprida
Que até barria o chão
As botas à desmedida
O melhor era o cinturão

E no fim disto então
O quarteleiro exclama
Pega as mantas e o colchão
Vai fazer a tua cama

Ho quantos dormem na lama
Sem terem onde dormir
Por isso a tropa é bacana
Não te ande a afligir

Trata mas é de te rir
Não queiras nunca chorar
Tua sorte hás-de seguir
E Deus te há-de confortar

Sabes que um militar
Quer-se valente prá guerra
Para com valentia lutar
E defender a nossa terra

COMEÇO DA INSTRUÇÃO

No dia 16 de Março
A seguir à alvorada
Comecei a marcar passo
Numa enorme parada

Como não sabia nada
Tiveram que me ensinar
Com a arma inclinada
Fazia direita voltar

Tratei de me aprumar
Logo na instrução primeira
Que era para atrás não ficar
Quando jurasse bandeira

Um homem de qualquer maneira
Tudo faz com facilidade
Mesmo ainda que não queira
Tem que mostrar a vontade

Digo na realidade
A tropa tem seus espinhos
E vem um homem nesta idade
Cá passar uns trabalhinhos

Temos de andar direitinhos
E em qualquer formatura
Se não estivermos caladinhos
Logo nos dão má figura

Um Homem tudo atura
E tudo leva com jeito
Mas sabe Deus a amargura
Que nos vai dentro do peito

Muitas vezes contrafeito
A parada vai barrer
E se o serviço é mal feito
De novo o volta a fazer

Tem um homem de se erguer
Logo no toque da alvorada
E muitas vezes sem saber
E acordado à cinturada

E se vai entrar à parada
Tem de ir bem engraixado
Com a roupa bem lavada
E o rosto bem barbeado

Se vai sujo é castigado
Rigorosamente com a lei
E tudo o que vos citei
É a vida de um soldado

DESPEDIDA

Tenho o tempo acabado
De novo vou ver meus pais
Como sou licenciado
Adeus senhores oficiais

Julgo que não volto mais
A entrar neste quartel
Minhas saudades são tais
Que não imaginar meu coronel

Fui um soldado fiel
Que cumpri minha missão
Por isso adeus meu coronel
E adeus meu capitão

Também não me fica em vão
Dois senhores da minha mente
Não me esquece nunca não
Meu alferes e meu tenente

Digo adeus a toda a gente
Com muita satisfação
Digo adeus muito contente
Ao primeiro do esquadrão

Adeus rancheiro Pimpão
Adeus amigo clarim
Adeus soldados que estão
Pois do posto igual a mim

Ó tropa que para alguém
Aquilo lhe calha em graça
Mas só aquele que cai bem
Sabes os trabalhos que passa
Ernesto dos Santos Fernandes, Portela

 

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