Histórias contadas pelos nossos avós…

O lobo que era ovelha

Vou contar-lhe uma história que nem acredita. Eu agora quando penso nela… Ou conto a alguém nem acredita. Olhe, foi ali em cima onde nós fomos criados naquela casa. Tínhamos o gado. De noite o gado ficava nas cancelas. Havia umas cancelas onde o gado dormia à noite no verão para não estar com tanto calor na loja. E era ali à parte de cima da casa à Fonte Grande. Uma noite foi lá um lobo. O meu irmão ainda era novito. E, também às vezes tinha tanto medo que não guardava bem o gado. Parece-me que, nessa noite, ele tinha vindo dormir a casa e o gado estava na parte de cima. Pela noite fora veio um lobo lá às cancelas. O gado teve tanto medo que fez muita força nas cancelas e derrubou-as. Houve uma parte das cancelas que caiu e o gado espalhou-se. Fugiu para um lado e para o outro. Depois estava ali uma vizinha. Era aqui a Elvira que também tinha gado. Aquilo de noite foi um alvoroço. Os cães, Jesus, faziam tanto barulho e toda a gente se levantou. O meu irmão… acho que ainda não se tinha deitado. Saímos todos aqui para a cortinha para acudir ao gado. Meteu-se um para ali, outro para além. O gado estava todo espalhado. Eu saí ali por aquele lado e fui ali ao cimo do horto da Rosa. Vinham uma poucas de ovelhas por o horto a baixo. Eu debrucei-me na parede. Estava muito escuro. Não havia luz. Eu disse assim para o meu irmão. Aí! Um lobo que anda aqui. E botei-lhe as mãos. Era uma ovelha coitadinha, ela vinha a saber de socorro. Disse para o meu irmão Eduardo. Olha, está aqui! Já o agarrei. E ele vai com um pau… Tive sorte em ele não me dar a mim. Que ele não via. Só se via aquele vulto. Ele vai com o sacho e dá-lhe assim uma pancada ao suposto lobo. Mas, o lobo era afinal uma ovelha. Não a matou, mas quase. Acabou de a matar mais tarde. Coitadinha, ficou mesmo doente. Ficou com um buraco na cabeça. Olha que burra que eu era. Pensava que o lobo ficava ali preso. Olha que história. O lobo ainda mordeu as ovelhas mas não as levou porque depois era os meus irmãos, o meu pai e ali os vizinhos e o lobo fugiu. Também tinham gado. Aqui tudo tinha gado.

Emília Pires, 87 anos – Portela

 

                                             

 

  PROMOTOR   APOIO   COLABORAÇÃO  
  azimute   aldeia pedagógica